12 Novembro, 2009
numa canção
Caetano Veloso canta:
Eram os outros românticos, no escuro
Cultuavam outra idade média, situada no futuro
Não no passado
Sendo incapazes de acompanhar
A baba Babel de economias
As mil teorias da economia
Recitadas na televisão
Tais irredutíveis ateus
Simularam uma religião
E o espírito era o sexo de Pixote, então
Na voz de algum cantor de rock alemão
Com o ódio aos que mataram Pixote a mão
Nutriam a rebeldia e a revolução
um poema
O VENTO
O vento dos poemas
não faz mexer
uma folha.
José Carlos Barros
in Criatura nº3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa
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o livreirito pediu à autora para roubar
juro pela minha saúde
Alguém chegou a este blogue
depois de procurar no google:
POEMAS FALANDO SOBRE COISAS BONITAS DE UMA PESSOA
depois de procurar no google:
POEMAS FALANDO SOBRE COISAS BONITAS DE UMA PESSOA
magos, diletantes, bifes, experimentadores, silenciosos e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
Na verdade, o meu cérebro
só dá alguns sinais de existir, bem ou mal,
a partir das 22h.
(...)
ouvido aqui à porta
Gostava de estar em Portugal no âmbito de um colóquio qualquer,
mas estou cá porque os meus pais não emigraram.
11 Novembro, 2009
um poema
Olhas as palavras
mas não vês nenhuma luz.
Olhas as árvores
e vês troncos, ramos, a variada folhagem.
As raízes tens de as imaginar.
Ou escavar a terra.
Agora olha, de novo, as palavras.
Agora, como olhas as árvores.
E tens de imaginar agora.
E escavar, agora, a terra.
in Criatura nº3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa
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a única vantagem, assim de repente, de não estar ninguém na livraria
é poder subir o volume e pôr o Brel aos berros
(de preferência no repeat,
numa cançãozinha que eu cá sei)
e uma pessoa, claro, sorri com estas coisas
peter gabriel (esgrouviado)
is now following your tweets on Twitter.
reclusos, emigrados, feridos, pintores, pícaros e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer

Emparedada/ Uit de Muur,
Joana Serrado, De Passage
Joana Serrado, De Passage

Bere´Shith - A cena da origem,
Miguel Casado, Hiperión
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
O xxxxx nunca mais vai olhar para o xxxxxxxx da mesma maneira. Muito me ri. Acho que se lhe tivesses dito que o xxxxxx era o xxxx xxxx ou a Lili Caneças a estupefacção não teria sido maior.
(...)
um poema
DIAGNÓSTICO
Pouca verdade! Pouca verdade!
Tenho razão enquanto não penso.
Pouca verdade...
Devagar...
Pode alguém chegar à vidraça...
Nada de emoções!...
Cautela!
Sim, se mo dessem aceitaria...
Não precisas insistir, aceitaria...
Para quê?
Que pergunta! Aceitaria...
Álvaro de Campos
in Livro de Versos - Fernando Pessoa, Estampa
Pouca verdade! Pouca verdade!
Tenho razão enquanto não penso.
Pouca verdade...
Devagar...
Pode alguém chegar à vidraça...
Nada de emoções!...
Cautela!
Sim, se mo dessem aceitaria...
Não precisas insistir, aceitaria...
Para quê?
Que pergunta! Aceitaria...
Álvaro de Campos
in Livro de Versos - Fernando Pessoa, Estampa
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hoje, às seis da tarde, na Biblioteca Nacional
Uma conversa com Alexandra Lucas Coelho,
a propósito do Caderno Afegão - Um diário de viagem,
recentemente editado pela Tinta da China.
(Parecendo que não, vê-se melhor clicando na imagem)
10 Novembro, 2009
volta a estar disponível uma pérola (lá mais para dia 19)
"

Os passos em volta,
Herberto Helder, Assírio & Alvim
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malandros, anónimos, viajantes, surrealistas, barrocos e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer

Les ames miraculeuses,
Aimé Césaire, Gallimard
o shôr Leiria é do camandro
TELEFONEMA
Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.
Mário Henrique-Leiria
Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.
Mário Henrique-Leiria
um poema
Olho de soslaio a carne morta, o arrepio
das arcadas: cílios que uma língua descolara
para sempre - bífida, a cilada
ecoa numa ferida a concha mate
Que se feche e o sal preencha a minha sombra.
Manhã cedo, encontraram-me entre a lava
da alameda, debruçado sobre a vasta babilónia
e vi: como a cor escurece e tinge, no açafate,
as cobras cegas
Capazes de morrer pela seda, vão soltar-se os anéis
do seu mais ímpio massacre. Ao passares os dedos pelo fumo,
quem te recolhe a mesma língua iniciada? Na virilha esconsa,
decerto voltariam ao calor de pele antiga, mas o vidro
desde cedo cede aos limos (cílio ardido)
Luis Manuel Gaspar
in Pandora, Averno
das arcadas: cílios que uma língua descolara
para sempre - bífida, a cilada
ecoa numa ferida a concha mate
Que se feche e o sal preencha a minha sombra.
Manhã cedo, encontraram-me entre a lava
da alameda, debruçado sobre a vasta babilónia
e vi: como a cor escurece e tinge, no açafate,
as cobras cegas
Capazes de morrer pela seda, vão soltar-se os anéis
do seu mais ímpio massacre. Ao passares os dedos pelo fumo,
quem te recolhe a mesma língua iniciada? Na virilha esconsa,
decerto voltariam ao calor de pele antiga, mas o vidro
desde cedo cede aos limos (cílio ardido)
Luis Manuel Gaspar
in Pandora, Averno
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09 Novembro, 2009
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
Ontem, vinha no carro e pus-me a ouvir a Antena 1. Era o relato do Rio Ave-Sporting. E oiço isto do comentador:
"...se a minha prima Marquinhas fosse viva recomendava-a ao Sporting para afastar o mau olhado..."
(...)
poucas, muito poucas são as vantagens de trabalhar em dois sítios
Mas ontem, estando o livreirito posto em sossego, o barman esteve em acção entre as dez da manhã e a meia-noite. Até aqui, tudo normal. Do que poucos se podem gabar é de aviar - sem maldade -, no mesmo dia, Mara Abrantes e o presidente de um banco.
a propósito de senhores

O tanatoperador,
Manuel da Silva Ramos, Fenda
***
CONTINGÊNCIAS À LÍNGUA MORTA. O quê?
(...)
Meu pai cortou a meta
Num caixão todo pretinho
- Alto! Quem vem lá?
- É o taberneiro do vinho.
***
Se passares por Sangalhos
Apalpa uns caralhos!
***
Se passares por Alcobaça
Parte a loiça toda
A culpa é do Vilaça
***
Se passares na Covilhã
Pergunta no Peso da Lã
Pelo filho do Alfaiate!
***
Fecha a mão,
Serás sacristão!
***
Tira um calo,
Bebe pelo gargalo!
***
Ri com o José Moleiro,
Não reconhecerás o coveiro!
***
Cântaro, cantarém
Quem se mexer
Irá pra Santarém
***
Cântaro, cantarinho
Quem se mexer
Apanhará no cuzinho!
- Apanha, meu amor!
***
Na confissão,
O padre põe-se de condão!
(...)
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gregos, mulatos, galegas, tímidos, façanhudos e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer

Portugal: la mirada cercana,
será verdade
que o sapientíssimo dr. Queirós,
possuidor de uma imbatível biblioteca,
está agora dentro deste blogue?
as visitas ao blogue estão fraquinhas, a livraria deserta
e o livreirito a pensar que podia estar,
disfarçado de gato,
aos pés da amada.
numa canção
Jacques Brel canta:
Adieu ma femme je t'aimais bien
Adieu ma femme je t'aimais bien
Adieu ma femme je t'aimais bien tu sais
Mais je prends le train pour le Bon Dieu
Je prends le train qui est avant le tien
Mais on prend tous le train qu'on peut
Adieu ma femme je vais mourir
C'est dur de mourir au printemps tu sais
Mais je pars aux fleurs les yeux fermés ma femme
Car vu que je les ai fermés souvent
Je sais que tu prendras soin de mon ame
um poema
Perco-me
no labirinto
dos dias
Ganho-me
no labirinto
dos dias
A poesia
é o perde-ganha
E o labirinto
dos dias
é o labirinto
dos dias
Adília Lopes
in Dobra, Assírio & Alvim
no labirinto
dos dias
Ganho-me
no labirinto
dos dias
A poesia
é o perde-ganha
E o labirinto
dos dias
é o labirinto
dos dias
Adília Lopes
in Dobra, Assírio & Alvim
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nesta residência é que se está bem

La voz de José Ángel Valente - Poesía en la residencia,
Publicaciones de la Residencia de Estudiantes
(um livro e um cd)
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só Laurinda, ah Laurinda A., não dá importância a esta campanha
não se vende, não se vende (é só mesmo para dar nervos)

40 noites de insónia de fogo de dentes
numa girândola implacável e outros poemas,
António José Forte, A antologia em 1958
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07 Novembro, 2009
Descansado da vida #53
BOLOR
Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.
SONO
Dormir
mas o sonho
repassa
duma insistente dor
a lembrança
da vida
água outra vez bebida
na pobreza da noite:
e assim perdido
o sono
o olvido
bates, coração, repetes
sem querer
o dia.
ESTRELA
Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.
Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.
SONO
Dormir
mas o sonho
repassa
duma insistente dor
a lembrança
da vida
água outra vez bebida
na pobreza da noite:
e assim perdido
o sono
o olvido
bates, coração, repetes
sem querer
o dia.
ESTRELA
Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.
Carlos de Oliveira
in Trabalho Poético, Assírio & Alvim
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Cuidar dos vivos #49
CAROÇO
O caroço deste fruto parece ser apenas
um invólucro frio, incomestível,
sem serventia alguma. Mas esconde
no fundo do seu poço uma vida
destinada a eclodir, mal sinta propício
o agasalho da terra.
Que o mesmo é dizer: está lá dentro
uma morte emboscada.
A.M. Pires Cabral
in As têmporas da cinza, Cotovia
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Cuidar dos vivos #48
A PORTA
Uma porta com um guarda. Alguém se aproxima.
- Senhor guarda, essa é a porta do inferno?
- Porque é que pergunta?, diz o guarda.
- Porque a essa não quero eu transpor umbrais.
- Meu caro senhor, esta é, sim, a porta do inferno. Uma das portas.
Começando a afastar-se:
- Obrigado, até não mais ver.
- Um momento, meu caro senhor, ainda não lhe disse o principal.
- Diga, então. Sou todo ouvidos.
- Esta é, sim, uma porta do inferno. A de saída.
- De saída? Como assim?
- De saída, repito-lhe. A si compete avaliar de que lado tem estado até agora.
- De que lado? Como assim?
- É a si que compete avaliar se tem estado do lado de dentro ou do lado de fora. Para depois, se quiser, e em conformidade, transpor ou não os umbrais.
- Mas, senhor guarda...
- Caro senhor, não temos mais nada a dizer um ao outro.
Rui Caeiro
in Telhados de Vidro nº12, Averno
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Descansado da vida #52
Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade
Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las
Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas
De uma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.
Dinis Machado
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade
Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las
Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas
De uma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.
Dinis Machado
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Descansado da vida #51
CALEFRIO AQUERÔNTICO
(Liliencron)Já bica o estorninho a sorva vermelha -
Jubilam violinos nas danças de agosto -
Não tarda que o Outono empunhe a tesoura
E corte uma a uma as folhas dos ramos.
Então se fará no bosque um vazio,
Um rio entre os troncos desnudos virá,
Trazendo à ribeira onde estou o barco
Que me há-de levar ao frio silêncio.
Manuel Bandeira
in Antologia, Relógio d'Água
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Cuidar dos vivos #47
«You are a foreigner of some sort.»
À míngua de uma ideia
de futuro, só o medo
te compelia a mudar.
E além dos livros difíceis
que te davam as horas
mais duras, sofrias os danos
do hábito e uma assídua
preocupação com a morte
no escuro antes de dormir.
Ao corpo do mundo
só o conhecias com a parte
mais desacompanhada
de ti próprio – um coração
com defeito, peça de dúbia
oficina, que confundia
o amor e tomava por alegria
um perdido laranjal junto à linha
do comboio, com nuvens roxas
ao largo e os teus amigos todos
antes do inverno e do necessário
inferno reservado a cada um.
de futuro, só o medo
te compelia a mudar.
E além dos livros difíceis
que te davam as horas
mais duras, sofrias os danos
do hábito e uma assídua
preocupação com a morte
no escuro antes de dormir.
Ao corpo do mundo
só o conhecias com a parte
mais desacompanhada
de ti próprio – um coração
com defeito, peça de dúbia
oficina, que confundia
o amor e tomava por alegria
um perdido laranjal junto à linha
do comboio, com nuvens roxas
ao largo e os teus amigos todos
antes do inverno e do necessário
inferno reservado a cada um.
Rui Pires Cabral
in Oráculos de Cabeceira, Averno
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Descansado da vida #50
DE VITA BEATA
Num velho país ineficaz,
um pouco como Espanha entre duas guerras
civis, numa aldeia à beira-mar,
possuir uma casa e poucos bens
e memória nenhuma. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas da minha inteligência.
Jaime Gil de Biedma
(tradução de José Bento)
in Antologia Poética, Cotovia
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é sempre agradável
quando, a uma hora imprecisa da tarde,
do Finalmente se começa a ouvir a música
com que os profissionais daquela casa
fazem os seus ensaios.
Descansado da vida #49
ENQUANTO ELA ARRANJA O CABELO
Ela arranja o cabelo antes de se deitar
e permanece em frente do espelho uma eternidade
entre cada flexão do braço
passam eras dos seus cabelos brotam silenciosamente
soldados da segunda legião de Augusto Antoniano
irmãos de armas de Rolando artilheiros de Verdun
com os dedos agéis
segura a auréola na cabeça
demorou tanto tempo
que quando
finalmente chegou até mim
meneando as ancas
o meu coração até aí tão dócil
parou
e na minha pele senti
grosseiros grãos de sal
Zbigniew Herbert
(tradução de Jorge Sousa Braga)
in Escolhidos pelas estrelas, Assírio & Alvim
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um poema
PINA BAUSCH, 2009
«As eleições de domingo no Benfica
estão comprometidas; morreu
Pina Bausch, a coreógrafa alemã.» – foi assim,
de rajada, numa frase única a colar-se
ao vidro do táxi, que fiquei a saber da sua morte.
E tive pena, recordei enquanto não pedia troco
a tristeza feliz de a ver dançar Café Müller
há um ano, no tempo em que estávamos vivos.
Mas já não tenho poemas.
Nem mesmo para si, Pina Bausch.
Manuel de Freitas
in Jukebox 1 & 2, Teatro de Vila Real
«As eleições de domingo no Benfica
estão comprometidas; morreu
Pina Bausch, a coreógrafa alemã.» – foi assim,
de rajada, numa frase única a colar-se
ao vidro do táxi, que fiquei a saber da sua morte.
E tive pena, recordei enquanto não pedia troco
a tristeza feliz de a ver dançar Café Müller
há um ano, no tempo em que estávamos vivos.
Mas já não tenho poemas.
Nem mesmo para si, Pina Bausch.
Manuel de Freitas
in Jukebox 1 & 2, Teatro de Vila Real
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uma cançãozita para ouvir ao almoço
Lenda Das Sereias, Rainha Do Mar, Marisa Monte
(A cantora bebeu parte dos trejeitos nas sambistas da antiga, nas cantoras de ópera e nas bailarinas, contemporâneas ou não, que viu na infância e na adolescência. Mas também em Caetano Veloso, que tinha aprendido com Pina Bausch e Carmen Miranda, que tinha sido ensinada por Dorival Caymmi, que aprendeu tudo a olhar o mar.)
numa canção
José Mário Branco diz:
A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.
a terra a quem a trabalha, a correspondência a quem a mantém
Ilustre Livreiro,
Venho pela presente, ainda que muito me custe ter de o fazer nestes termos, apresentar a minha mágoa por, ao fim de quase um ano de notáveis serviços prestados à Pátria e a outras entidades mais ou menos abstractas, V. Dig.ma Exa. ainda não ter feito referência em Seu Magnânimo espaço cibernáutico à cidade de Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch, constante, como saberá, da página noventa (reporto-me à 2ª edição, de 1987, que é a que possuo) de Photomaton & Vox, obra de um conhecido Autor português da actualidade.
Permito-me acrescentar que considero tal omissão uma ignomínia, uma afronta, uma vergonha, uma coisa do outro mundo e, até, uma falta de sensibilidade da parte de V. Dig.ma Exa., que priva parte significativa da Sociedade Portuguesa em particular, e do Mundo em geral, de um pormenor incontornável das letras nacionais.
Usando dos devidos cumprimentos,
Prof. Arq.to D. Bráulio Alexandre de Soropita e Negreiros Pitta de Cimento Alverca, Barão de Pedra Badejo, ao dispor.
e logo havia o livreirito de ter jurado que nunca escreveria a palavra versschmuggel

Versschmuggel / Contrabando de versos,
AAVV, Wunderhorn / Editora 34 / Sextante
(impressos e audíveis,
poetras de três continentes)
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06 Novembro, 2009
nesta residência é que se está bem

La voz de Álvaro Mutis - Poesía en la residencia,
Publicaciones de la Residencia de Estudiantes
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germanófilos, apaixonados, amanuenses, pintores, tarados e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
E sou fiel à máxima
«diz-me como reagiste à atribuição do prémio Saramago
e dir-te-ei se te leio ou não».
(...)
uma bomba
Não foi tanto a demissão de Paulo Bento
que surpreendeu as hostes da Poesia Incompleta.
O que o livreirito não esperava era a enorme coragem com
que o ex treinador do Sporting assumiu que tem quatro senhoras.
um poema
ERST-DANN
Erst Wahn von Grösse
mit Kronen besteckt,
dann nichts wie Blösse,
die niemand bedeckt.
Erst in Gewittern,
in Räuschen und Rauch
und dann das Zittern:
durftest du auch -?
Und am Schlusse des Wahnes,
man sagt es nicht gern:
Domini canes -
Hunde des Herrn.
ANTES - DEPOIS
Antes vã grandeza
de coroas ornada
depois a nudez
por ninguém tapada.
Antes em trovões,
em êxtase e fumo,
depois as sezões:
podias mas como?
De ilusões inanes,
fim. Diz sem calor:
Domini canes -
cães do Senhor.
versão de Vasco Graça Moura
in 50 poemas, Relógio d´Água
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numa canção
Caetano Veloso canta:
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contar o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
É um desmascaro
Singelo grito:
"O rei está nu"
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato
Sigo mais sozinho caminhando contar o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
É um desmascaro
Singelo grito:
"O rei está nu"
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato
de que o rei é mais bonito nu
05 Novembro, 2009
um poema
Le stelle nere
Nessuno canti più d´amore o di guerra.
L´ordine donde il cosmo traeva nome è sciolto;
Le legioni celesti sono un groviglio di mostri,
L´universo ci assedia cieco, violento e strano.
Il sereno è coparso d´orribili soli morti,
Sedimenti densissimi d´atomi stritolati.
Da loro non emana che disperata gravezza,
Non energia, non messaggi, no particelle, non luce;
La luce stessa ricade, rotta dal proprio peso,
E tutti noi seme umano viviamo e moriamo per nulla,
E i cieli si convolgono perpetuamente invano.
Primo Levi
Las estrellas negras
Nadie cante más de amor o de guerra.
El orden de donde el cosmos tomaba su nombre se disolvió;
Las legiones celestes son enredos de monstruos,
El universo, ciego nos asedia, violento y extraño.
El sereno se baña de horribles soles muertos,
Sedimentos densísimos de átomos triturados,
De los que sólo emana una desesperada pesadez,
No energía, ni mensajes ni partículas ni luz;
La misma luz de nuevo cae, rota por su peso,
Y todos nosotros, semilla humana, vivimos y morimos por nada,
Y los cielos, en vano, se comprometen eternamente.
(Tradução de Jeannette L. Clariond)
Primo Levi
in A una hora incierta, La poesía, señor hidalgo
se foi o Bráulio que disse
Há bocado, enquanto almoçava uma solha frita ali na zona do Intendente, houve um rapaz que me disse "o senhor é mais versátil do que estas senhoras aqui atrás". Daí a pouco, o mesmo jovem contava aos seus colegas que na Nigéria existe uma banda de tetraplégicos que constrói artesanalmente os seus instrumentos e que se tornou famosa pela sua versão do Sex Machine.
Gostava de ter imaginação suficiente para ter inventado isto.
da Índia com amor

Sweet on my lips - The love poems of...,
Mirabai, Cool Grove Press
(tradução, introdução e restante
enquadramento técnico-táctico
Louise Landes Levi)
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um poema
da vida das marionetes
bonecas, penduradas
no céu desta noite
sem rumo
desabam
cataplécticas
suas pernas
erráticas
pelos destinos - traçados
nas efemérides
da infância
Virna Teixeira
in Trânsitos, Lumme Editor
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exilados, citacionistas, defuntos, génios, ilhéus e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer
da sub-secção gente que não dominava completamente a língua de António Sardinha
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