12 Novembro, 2009

é só uma impressãozinha na vista

numa canção

Caetano Veloso canta:

Eram os outros românticos, no escuro
Cultuavam outra idade média, situada no futuro
Não no passado
Sendo incapazes de acompanhar
A baba Babel de economias
As mil teorias da economia
Recitadas na televisão
Tais irredutíveis ateus
Simularam uma religião
E o espírito era o sexo de Pixote, então
Na voz de algum cantor de rock alemão
Com o ódio aos que mataram Pixote a mão
Nutriam a rebeldia e a revolução

um poema

O VENTO

O vento dos poemas
não faz mexer
uma folha.

José Carlos Barros
in Criatura nº3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa


o livreirito pediu à autora para roubar

(a imagem é da senhora dos berlindes
e os dizeres são do Dr. Vasco Graça Moura)

cá chegou (trazido pelo autor)

Também a memória é algum conhecimento,
João Miguel Henriques, Lumme Editor

juro pela minha saúde

Alguém chegou a este blogue
depois de procurar no google:

POEMAS FALANDO SOBRE COISAS BONITAS DE UMA PESSOA

magos, diletantes, bifes, experimentadores, silenciosos e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer

Antologia da poesia portuguesa experimental - Anos 60 - 80,
AAVV, Angelus Novus

Capitais da solidão,
Rui Pires Cabral, Teatro de Vila Real

Poesie,
Fernando Pessoa, Lerici Editori

Um pouco de morte,
António Quadros Ferro, Edição do autor
Em nenhum paraíso,
Diego Doncel, Averno

Quando escreve descalça-se,
Miguel-Manso, Trama

Christmas day,
Paul Durcan, The Harvill Press

Lavra,
Ruy Duarte de Carvalho, Livros Cotovia

Antología de poesía primitiva,
AAVV, Alianza

Cartas de aniversário,
Ted Hughes, Relógio d´Água

Baba de caracol,
Rui Caeiro, Edição do autor

La bonne chanson * Amour - Bonheur * Chansons pour elle,
Paul Verlaine, Éditions de Cluny

A perspectiva da morte: 20 (-2) poetas portugueses do século XX,
AAVV, Assírio & Alvim

4 visões memoráveis,
William Blake, Antígona

Os nossos dias seguido de Os lugares antigos,
Miguel Godinho, 4 Águas

grazie, Nicoletta

uma das poucas razões para ter saudades da televisão



Jô Soares

dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras

(...)

Na verdade, o meu cérebro
só dá alguns sinais de existir, bem ou mal,
a partir das 22h.

(...)

Herberto rules







da Assírio & Alvim com amor

por este título é que uma pessoa não esperava

Guru punk,
Louise Landes Levi, Cool Grove Press

ouvido aqui à porta


Gostava de estar em Portugal no âmbito de um colóquio qualquer,
mas estou cá porque os meus pais não emigraram.

de landas isabelinas

Lunar months,
Jo Haslam, Smith / Doorstop Books

& etc - 36 anos a bombar

Anelar, mínimo,
Regina Guimarães, & etc

isto devia ter aberto há mais tempo

Obra poética,
José Carlos Ary dos Santos, Edições Avante

no repeat


A mi amor... con mi amor, Armando Manzanero

11 Novembro, 2009

até amanhã



O filme é muito simpático
e a banda sonora até manda ventarolas.

um poema

Olhas as palavras
mas não vês nenhuma luz.

Olhas as árvores
e vês troncos, ramos, a variada folhagem.

As raízes tens de as imaginar.
Ou escavar a terra.

Agora olha, de novo, as palavras.
Agora, como olhas as árvores.

E tens de imaginar agora.
E escavar, agora, a terra.

Luís Filipe Parrado
in Criatura nº3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa

detalhes tão pequenos*



* é de uma canção de Roberto Carlos

a única vantagem, assim de repente, de não estar ninguém na livraria

é poder subir o volume e pôr o Brel aos berros

(de preferência no repeat,
numa cançãozinha que eu cá sei)

Pina Rules



(Esta crónica não é de hoje
mas continua óptima)

e uma pessoa, claro, sorri com estas coisas

peter gabriel (esgrouviado)
is now following your tweets on Twitter.

a propósito de senhores

David Mourão-Ferreira ou "A secreta viagem",
Helana Malheiro, Oficina do Livro

reclusos, emigrados, feridos, pintores, pícaros e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer


Homem de palavra(s),
Ruy Belo, Dom Quixote

Emparedada/ Uit de Muur,
Joana Serrado, De Passage

Bere´Shith - A cena da origem,
Haroldo de Campos, Perspectiva

Anotação dos dias - Poemas da prisão,
Carlos Brito, Edições Avante

El paseo de Buster Keaton,
Federico García Lorca, Media Vaca

Analogia e dedos,
Pedro Tamen, Oceanos

Inventario,
Miguel Casado, Hiperión

Colleted poems,
Michael Schmidt, Smith / Doorstop Books

Lábio cortado,
Rui Almeida, Livro do dia

Exercícios de crueldade,
Ruy Duarte de Carvalho, & etc

Blues castellano,
Antonio Gamoneda, Bartleby Editores

O que dói às aves,
Alice Vieira, Caminho

Poesia incompleta,
Mário Dionísio, Publicações Europa-América

Soma pouca,
Carlos Aboim Inglez, Edições Avante

Obras completas - Volume I - Sonetos e Quintilhas,
Nicolau Tolentino de Almeida, Campo das Letras

Du monde entier au coeur du monde,
Blaise Cendrars, Gallimard
Restos de quase nada e outras poesias,
António Manuel Couto Viana, Averno

do senhor Fortinbras

(...)


(...)

não se vende, não se vende (é só mesmo para dar nervos)


Le surréalisme et l´aprés-guerre,
Tristan Tzara, Les Éditions Nagel

dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras

(...)

O xxxxx nunca mais vai olhar para o xxxxxxxx da mesma maneira. Muito me ri. Acho que se lhe tivesses dito que o xxxxxx era o xxxx xxxx ou a Lili Caneças a estupefacção não teria sido maior.

(...)

uma cançãozita para ouvir ao almoço



Les Flamandes, Jacques Brel

um poema

DIAGNÓSTICO

Pouca verdade! Pouca verdade!
Tenho razão enquanto não penso.
Pouca verdade...
Devagar...
Pode alguém chegar à vidraça...
Nada de emoções!...
Cautela!
Sim, se mo dessem aceitaria...
Não precisas insistir, aceitaria...
Para quê?
Que pergunta! Aceitaria...

Álvaro de Campos
in Livro de Versos - Fernando Pessoa, Estampa

juro pela minha saúde

Alguém chegou a este blogue
depois de procurar no google:

poema que exagera em algo

hoje, às seis da tarde, na Biblioteca Nacional


Uma conversa com Alexandra Lucas Coelho,
recentemente editado pela Tinta da China.

(Parecendo que não, vê-se melhor clicando na imagem)

de landas isabelinas

Beautifully keept things,
Hubert Moore, Smith / Doorstop Books

traduziu Michaux

(inglês e italiano)

Banana baby,
Louise Landes Levi, Supernova

já cá está


Jukebox 1 & 2,
Manuel de Freitas, Teatro de Vila Real

no repeat

El Manisero, Antonio Machin

10 Novembro, 2009

até amanhã



Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim e Francis Albert Sinatra

detalhes tão pequenos*


* é de uma canção de Roberto Carlos

no fim percebe-se quem é que o matou?


Buffalo Bill ha muerto,
E.E. Cummings, Hiperión

volta a estar disponível uma pérola (lá mais para dia 19)

"

Os passos em volta,
Herberto Helder, Assírio & Alvim

é só uma impressãozinha na vista

malandros, anónimos, viajantes, surrealistas, barrocos e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer


Les ames miraculeuses,
Aimé Césaire, Gallimard

Textos sobre Hölderlin,
Philippe Lacoue-Labarthe, Vendaval

Cântico dos cânticos,
Anónimo, BI

Prazo de validade,
Luiz Pacheco, Contraponto

XX DIAS,
Rui Miguel Ribeiro, Averno

Poesía completa,
Catulo, Hiperión

Um punhado de terra,
Pedro Eiras, Deriva

Poemas (com cd),
Luis García Montero, Visor

Dobra,
Adília Lopes, Assírio & Alvim

Can poetry matter?
Dana Gioia, Graywolf Press

Protocolos,
Álvaro Pombo, Lumen

Odeceleste,
Manuel Rodrigues, & etc

Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China

Cadernos de literatura brasileira,
Adélia Prado, Instituto Moreira Salles

Uma terra sem gente para gente sem terra,
Nuno Coelho e Adam Kershaw, Edição dos autores

Jardim de camaleões,
AAVV, Iluminuras

Aventuras da razão,
Carlos Eurico da Costa, Moraes Editores

isto é que é uma contracapa

o shôr Leiria é do camandro

TELEFONEMA


Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.

Mário Henrique-Leiria

as oferendas do senhor Lacerda

Oferenda I,
Alberto de Lacerda, Imprensa Nacional

Oferenda II,
Alberto de Lacerda, Imprensa Nacional

o Caeiro é aquele das árvores e dos rios, não é?

Poesia de Alberto Caeiro,
Fernando Pessoa, Assírio & Alvim

detalhes tão pequenos*


* é de uma canção de Roberto Carlos

uma cançãozita para ouvir ao almoço



Marieke, Jacques Brel

de landas isabelinas

The sign for water,
Jo Haslam, Smith / Doorstop Books

bons ventos e bons casamentos

Desiertos de la luz,
Antonio Colinas, Tusquets Editores

juro pela minha saúde

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PUMBA POESIA

um poema

Olho de soslaio a carne morta, o arrepio
das arcadas: cílios que uma língua descolara
para sempre - bífida, a cilada
ecoa numa ferida a concha mate

Que se feche e o sal preencha a minha sombra.
Manhã cedo, encontraram-me entre a lava
da alameda, debruçado sobre a vasta babilónia
e vi: como a cor escurece e tinge, no açafate,
as cobras cegas

Capazes de morrer pela seda, vão soltar-se os anéis
do seu mais ímpio massacre. Ao passares os dedos pelo fumo,
quem te recolhe a mesma língua iniciada? Na virilha esconsa,
decerto voltariam ao calor de pele antiga, mas o vidro
desde cedo cede aos limos (cílio ardido)

Luis Manuel Gaspar
in Pandora, Averno

no repeat

Brizzi do Brasil, Aldo Brizzi

09 Novembro, 2009

até amanhã



O parente afastado do Mr. Magoo,
parecendo que não,
sabia qualquer coisa sobre música

ora, se segunda-feira é dia 9, pela lógica, quarta-feira será dia 11




(Parecendo que não, vê-se melhor clicando na imagem)

dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras

(...)

Ontem, vinha no carro e pus-me a ouvir a Antena 1. Era o relato do Rio Ave-Sporting. E oiço isto do comentador:

"...se a minha prima Marquinhas fosse viva recomendava-a ao Sporting para afastar o mau olhado..."

(...)

poucas, muito poucas são as vantagens de trabalhar em dois sítios

Mas ontem, estando o livreirito posto em sossego, o barman esteve em acção entre as dez da manhã e a meia-noite. Até aqui, tudo normal. Do que poucos se podem gabar é de aviar - sem maldade -, no mesmo dia, Mara Abrantes e o presidente de um banco.

a propósito de senhores

O tanatoperador,
Manuel da Silva Ramos, Fenda

***

CONTINGÊNCIAS À LÍNGUA MORTA. O quê?

(...)

Meu pai cortou a meta
Num caixão todo pretinho
- Alto! Quem vem lá?
- É o taberneiro do vinho.

***

Se passares por Sangalhos
Apalpa uns caralhos!

***

Se passares por Alcobaça
Parte a loiça toda
A culpa é do Vilaça

***

Se passares na Covilhã
Pergunta no Peso da Lã
Pelo filho do Alfaiate!

***

Fecha a mão,
Serás sacristão!

***

Tira um calo,
Bebe pelo gargalo!

***

Ri com o José Moleiro,
Não reconhecerás o coveiro!

***

Cântaro, cantarém
Quem se mexer
Irá pra Santarém

***

Cântaro, cantarinho
Quem se mexer
Apanhará no cuzinho!
- Apanha, meu amor!

***

Na confissão,
O padre põe-se de condão!

(...)

de Torres Vedras a Lisboa é um tirinho

Nenhuma palavra nos salva,
Rute Mota, Livro do dia

é só uma impressãozinha na vista

o livreirito foi avisado pelo autor


Que aqui há poemas e fotografias.

gregos, mulatos, galegas, tímidos, façanhudos e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer

Portugal: la mirada cercana,
AAVV, Hiperión

Oráculos de Cabeceira,
Rui Pires Cabral, Averno

O espaço sem volta...,
Marco Alexandre Rebelo, Vendaval

Materiais para confecção de um espanador de tristezas,
Ondjaki, Caminho

Simbolismo, saudosismo e modernismo,
AAVV, Quasi


Do lado de dentro,
Manuel Cintra, Presença

Mais provençais,
AAVV - Augusto de Campos, Companhia das Letras

Poesia reunida,
Manuel António Pina, Assírio & Alvim

Contra a manhã burra,
Miguel-Manso, Mariposa Azual

Textos e canções,
José Afonso, Relógio d´Água

Poesia cubana contemporânea - Dez poetas,
AAVV, Antígona

A contracorriente,
Jesús María Gómez Y Flores, Editora Regional Extremadura

90 e mais quatro poemas,
Constantino Cavafy, Asa

Um estranho em Goa (3 cds),
José Eduardo Agualusa lido por Fernando Alves, Boca

Bella durmiente,
Miriam Reyes, Hiperión

A poesia portuguesa hoje,
Gastão Cruz, Relógio d´Água

Mar largo,
Vítor Nogueira, & etc


será verdade

que o sapientíssimo dr. Queirós,
possuidor de uma imbatível biblioteca,
está agora dentro deste blogue?

as visitas ao blogue estão fraquinhas, a livraria deserta

e o livreirito a pensar que podia estar,
disfarçado de gato,
aos pés da amada.

numa canção

Jacques Brel canta:

Adieu ma femme je t'aimais bien
Adieu ma femme je t'aimais bien tu sais
Mais je prends le train pour le Bon Dieu
Je prends le train qui est avant le tien
Mais on prend tous le train qu'on peut
Adieu ma femme je vais mourir
C'est dur de mourir au printemps tu sais
Mais je pars aux fleurs les yeux fermés ma femme
Car vu que je les ai fermés souvent
Je sais que tu prendras soin de mon ame

de Torres Vedras a Lisboa é um tirinho

Lábio Cortado,
Rui Almeida, Livro do dia

juro pela minha saúde

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botinhas em tricot

de landas isabelinas

Borrowed,
Andrea Holland, Smith / Doorstop Books

da sub-secção rapazes que seguiam à risca os conselhos do nutricionista



Les Bonbons, Jacques Brel

de Torres Vedras a Lisboa é um tirinho

Mapa,
Manuel A. Domingos, Livro do dia

chapéus, cabelos em chamas, cachimbos e um ou outro assunto sem a letra C

um poema

Perco-me
no labirinto
dos dias

Ganho-me
no labirinto
dos dias

A poesia
é o perde-ganha


E o labirinto
dos dias
é o labirinto
dos dias

Adília Lopes
in Dobra, Assírio & Alvim

nesta residência é que se está bem

La voz de José Ángel Valente - Poesía en la residencia,
Publicaciones de la Residencia de Estudiantes

(um livro e um cd)

só Laurinda, ah Laurinda A., não dá importância a esta campanha

O livreiro Ricardo também tem direito.
O livreiro Ricardo merece que se lhe faça justiça.
O livreiro Ricardo, digam o que disserem, tem um coração d´oiro.

Vamos fazer uma vaquinha
e oferecer uns dias de descanso ao livreiro Ricardo.



não se vende, não se vende (é só mesmo para dar nervos)

40 noites de insónia de fogo de dentes
numa girândola implacável e outros poemas,
António José Forte, A antologia em 1958

no repeat

Frank's Wild Years, Tom Waits

07 Novembro, 2009

bom domingo



Pé do meu Samba, Mart'nália e Caetano Veloso

de landas isabelinas

Henry´s clock,
Cliff Yates, Smith / Doorstop Books

edições assim, meu zeus, até dão nervos

Canções de inocência e de experiência,
William Blake, Assírio & Alvim

Descansado da vida #53

BOLOR


Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.




SONO


Dormir
mas o sonho
repassa
duma insistente dor
a lembrança
da vida
água outra vez bebida
na pobreza da noite:
e assim perdido
o sono
o olvido
bates, coração, repetes
sem querer
o dia.




ESTRELA


Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.


Carlos de Oliveira
in Trabalho Poético, Assírio & Alvim

Cuidar dos vivos #49

CAROÇO

O caroço deste fruto parece ser apenas
um invólucro frio, incomestível,
sem serventia alguma. Mas esconde
no fundo do seu poço uma vida
destinada a eclodir, mal sinta propício
o agasalho da terra.

Que o mesmo é dizer: está lá dentro
uma morte emboscada.


A.M. Pires Cabral
in As têmporas da cinza, Cotovia

juro pela minha saúde

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depois de procurar no google:

esqueleto cesariny

Cuidar dos vivos #48

A PORTA

Uma porta com um guarda. Alguém se aproxima.
- Senhor guarda, essa é a porta do inferno?
- Porque é que pergunta?, diz o guarda.
- Porque a essa não quero eu transpor umbrais.
- Meu caro senhor, esta é, sim, a porta do inferno. Uma das portas.
Começando a afastar-se:
- Obrigado, até não mais ver.
- Um momento, meu caro senhor, ainda não lhe disse o principal.
- Diga, então. Sou todo ouvidos.
- Esta é, sim, uma porta do inferno. A de saída.
- De saída? Como assim?
- De saída, repito-lhe. A si compete avaliar de que lado tem estado até agora.
- De que lado? Como assim?
- É a si que compete avaliar se tem estado do lado de dentro ou do lado de fora. Para depois, se quiser, e em conformidade, transpor ou não os umbrais.
- Mas, senhor guarda...
- Caro senhor, não temos mais nada a dizer um ao outro.


Rui Caeiro
in Telhados de Vidro nº12, Averno

Descansado da vida #52

SONETO PARA CESÁRIO

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.

Dinis Machado

Descansado da vida #51

CALEFRIO AQUERÔNTICO
(Liliencron)
Já bica o estorninho a sorva vermelha -
Jubilam violinos nas danças de agosto -
Não tarda que o Outono empunhe a tesoura
E corte uma a uma as folhas dos ramos.
Então se fará no bosque um vazio,
Um rio entre os troncos desnudos virá,
Trazendo à ribeira onde estou o barco
Que me há-de levar ao frio silêncio.


Manuel Bandeira
in Antologia, Relógio d'Água

Cuidar dos vivos #47

«You are a foreigner of some sort.»

À míngua de uma ideia
de futuro, só o medo
te compelia a mudar.
E além dos livros difíceis
que te davam as horas
mais duras, sofrias os danos
do hábito e uma assídua
preocupação com a morte
no escuro antes de dormir.
Ao corpo do mundo
só o conhecias com a parte
mais desacompanhada
de ti próprio – um coração
com defeito, peça de dúbia
oficina, que confundia
o amor e tomava por alegria
um perdido laranjal junto à linha
do comboio, com nuvens roxas
ao largo e os teus amigos todos
antes do inverno e do necessário
inferno reservado a cada um.


Rui Pires Cabral
in Oráculos de Cabeceira, Averno

Descansado da vida #50

DE VITA BEATA

Num velho país ineficaz,
um pouco como Espanha entre duas guerras
civis, numa aldeia à beira-mar,
possuir uma casa e poucos bens
e memória nenhuma. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas da minha inteligência.


Jaime Gil de Biedma
(tradução de José Bento)
in Antologia Poética, Cotovia

é sempre agradável

quando, a uma hora imprecisa da tarde,
do Finalmente se começa a ouvir a música
com que os profissionais daquela casa
fazem os seus ensaios.

Descansado da vida #49

ENQUANTO ELA ARRANJA O CABELO

Ela arranja o cabelo antes de se deitar
e permanece em frente do espelho uma eternidade
entre cada flexão do braço
passam eras dos seus cabelos brotam silenciosamente
soldados da segunda legião de Augusto Antoniano
irmãos de armas de Rolando artilheiros de Verdun
com os dedos agéis
segura a auréola na cabeça
demorou tanto tempo
que quando
finalmente chegou até mim
meneando as ancas
o meu coração até aí tão dócil
parou
e na minha pele senti
grosseiros grãos de sal


Zbigniew Herbert
(tradução de Jorge Sousa Braga)
in Escolhidos pelas estrelas, Assírio & Alvim

em memória do senhor António Sérgio

um poema

PINA BAUSCH, 2009

«As eleições de domingo no Benfica
estão comprometidas; morreu
Pina Bausch, a coreógrafa alemã.» – foi assim,
de rajada, numa frase única a colar-se
ao vidro do táxi, que fiquei a saber da sua morte.

E tive pena, recordei enquanto não pedia troco
a tristeza feliz de a ver dançar Café Müller
há um ano, no tempo em que estávamos vivos.

Mas já não tenho poemas.
Nem mesmo para si, Pina Bausch.

Manuel de Freitas
in Jukebox 1 & 2, Teatro de Vila Real

uma cançãozita para ouvir ao almoço



Lenda Das Sereias, Rainha Do Mar, Marisa Monte

(A cantora bebeu parte dos trejeitos nas sambistas da antiga, nas cantoras de ópera e nas bailarinas, contemporâneas ou não, que viu na infância e na adolescência. Mas também em Caetano Veloso, que tinha aprendido com Pina Bausch e Carmen Miranda, que tinha sido ensinada por Dorival Caymmi, que aprendeu tudo a olhar o mar.)

numa canção

José Mário Branco diz:

A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

a terra a quem a trabalha, a correspondência a quem a mantém

Ilustre Livreiro,

Venho pela presente, ainda que muito me custe ter de o fazer nestes termos, apresentar a minha mágoa por, ao fim de quase um ano de notáveis serviços prestados à Pátria e a outras entidades mais ou menos abstractas, V. Dig.ma Exa. ainda não ter feito referência em Seu Magnânimo espaço cibernáutico à cidade de Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch, constante, como saberá, da página noventa (reporto-me à 2ª edição, de 1987, que é a que possuo) de Photomaton & Vox, obra de um conhecido Autor português da actualidade.
Permito-me acrescentar que considero tal omissão uma ignomínia, uma afronta, uma vergonha, uma coisa do outro mundo e, até, uma falta de sensibilidade da parte de V. Dig.ma Exa., que priva parte significativa da Sociedade Portuguesa em particular, e do Mundo em geral, de um pormenor incontornável das letras nacionais.

Usando dos devidos cumprimentos,
Prof. Arq.to D. Bráulio Alexandre de Soropita e Negreiros Pitta de Cimento Alverca, Barão de Pedra Badejo, ao dispor.

e logo havia o livreirito de ter jurado que nunca escreveria a palavra versschmuggel


Versschmuggel / Contrabando de versos,
AAVV, Wunderhorn / Editora 34 / Sextante

(impressos e audíveis,
poetras de três continentes)

mais um motivo de alvoroço para certa e determinada rapaziada

Escolhido pelas estrelas - Antologia poética,
Zbigniew Herbert, Assírio & Alvim

agora a sério

no repeat

Beautiful Maladies: The Island Years, Tom Waits

06 Novembro, 2009

até amanhã



Esperanza Spalding

segunda ou terça chega este

Jukebox 1 & 2,
Manuel de Freitas, Teatro de Vila Real

é só uma impressãozinha na vista

nesta residência é que se está bem

La voz de Álvaro Mutis - Poesía en la residencia,
Publicaciones de la Residencia de Estudiantes

(um livro e um cd)

germanófilos, apaixonados, amanuenses, pintores, tarados e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer

Gramática expositiva do chão,
Manoel de Barros, Record

Días en claro,
José Mateos, Pre-textos

O mundo desde o fim,
Antonio Cicero, Quasi

Fernanda,
Ernesto Sampaio, Fenda

Clamores,
António Ramos Rosa, Caminho

Os escravos,
Castro Alves, L&PM Pocket

Read & mad,
Alberto Pimenta, & etc

K 4 o quadrado azul,
José de Almada-Negreiros, Assírio & Alvim

Melhores poemas,
Manuel Bandeira, Global

Eros de passagem,
AAVV, Campo das Letras

Cartas de aniversário,
Ted Hughes, Relógio d´Água

dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras

(...)

E sou fiel à máxima
«diz-me como reagiste à atribuição do prémio Saramago
e dir-te-ei se te leio ou não».

(...)

juro pela minha saúde

Alguém chegou a este blogue
depois de procurar no google:

poesias rapidas

sem estrondo e com elegância, vão entrando poetas do camandro

La ola que regresa (Poesía reunida),
Fabio Morábito, Fondo de cultura económica

(ai, graças a deus, até que enfim) chegaram livros da Sextante

A anotação do mal,
Jaime Rocha, Sextante

para quem ainda não sabe



A Poesia Incompleta
é por aqui.

uma bomba

Não foi tanto a demissão de Paulo Bento
que surpreendeu as hostes da Poesia Incompleta.

O que o livreirito não esperava era a enorme coragem com
que o ex treinador do Sporting assumiu que tem quatro senhoras.

agora a sério


de landas isabelinas

19th Century Blues,
Patrick McGuinness, Smith / Doorstop Books

uma cançãozita para ouvir ao almoço



Ovunque Proteggi, Vinicio Capossela

um poema

ERST-DANN

Erst Wahn von Grösse
mit Kronen besteckt,
dann nichts wie Blösse,
die niemand bedeckt.

Erst in Gewittern,
in Räuschen und Rauch
und dann das Zittern:
durftest du auch -?

Und am Schlusse des Wahnes,
man sagt es nicht gern:
Domini canes -
Hunde des Herrn.

Gottfried Benn

ANTES - DEPOIS

Antes vã grandeza
de coroas ornada
depois a nudez
por ninguém tapada.

Antes em trovões,
em êxtase e fumo,
depois as sezões:
podias mas como?

De ilusões inanes,
fim. Diz sem calor:
Domini canes -
cães do Senhor.

versão de Vasco Graça Moura
in 50 poemas, Relógio d´Água

já foi lançado no Brasil (talvez chegue a Portugal, talvez não)

Monodrama,
Carlito Azevedo, 7 Letras

numa canção

Caetano Veloso canta:

E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contar o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
É um desmascaro
Singelo grito:
"O rei está nu"
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato
de que o rei é mais bonito nu

detalhes tão pequenos*


* é de uma canção de Roberto Carlos

infelizmente, o livreirito não sabe o nome do fotógrafo

Este senhor chama-se Joachim Ringelnatz

ainda vai traduzir uns poemas dele

a dona Margarida diz que até vão dar sugos

no repeat

Blood Money, Tom Waits

05 Novembro, 2009

até amanhã



Joshua Bennett

um poema

Le stelle nere

Nessuno canti più d´amore o di guerra.

L´ordine donde il cosmo traeva nome è sciolto;
Le legioni celesti sono un groviglio di mostri,
L´universo ci assedia cieco, violento e strano.
Il sereno è coparso d´orribili soli morti,
Sedimenti densissimi d´atomi stritolati.
Da loro non emana che disperata gravezza,
Non energia, non messaggi, no particelle, non luce;
La luce stessa ricade, rotta dal proprio peso,
E tutti noi seme umano viviamo e moriamo per nulla,
E i cieli si convolgono perpetuamente invano.

Primo Levi

Las estrellas negras

Nadie cante más de amor o de guerra.

El orden de donde el cosmos tomaba su nombre se disolvió;
Las legiones celestes son enredos de monstruos,
El universo, ciego nos asedia, violento y extraño.
El sereno se baña de horribles soles muertos,
Sedimentos densísimos de átomos triturados,
De los que sólo emana una desesperada pesadez,
No energía, ni mensajes ni partículas ni luz;
La misma luz de nuevo cae, rota por su peso,
Y todos nosotros, semilla humana, vivimos y morimos por nada,
Y los cielos, en vano, se comprometen eternamente.

(Tradução de Jeannette L. Clariond)

Primo Levi
in A una hora incierta, La poesía, señor hidalgo

não se vende, não se vende (é só mesmo para dar nervos)

2 textos à pressão,
Vítor Silva Tavares, Contraponto

a isto se chama uma embalagem com style

se foi o Bráulio que disse

Há bocado, enquanto almoçava uma solha frita ali na zona do Intendente, houve um rapaz que me disse "o senhor é mais versátil do que estas senhoras aqui atrás". Daí a pouco, o mesmo jovem contava aos seus colegas que na Nigéria existe uma banda de tetraplégicos que constrói artesanalmente os seus instrumentos e que se tornou famosa pela sua versão do Sex Machine.

Gostava de ter imaginação suficiente para ter inventado isto.

isto devia ter aberto há mais tempo

Um dia e outro dia... outono havias de vir,
Irene Lisboa, Presença

está mesmo a chegar

Escalpe,
Amadeu Baptista, & etc

detalhes tão pequenos*


* é de uma canção de Roberto Carlos

da Índia com amor

Sweet on my lips - The love poems of...,
Mirabai, Cool Grove Press

(tradução, introdução e restante
enquadramento técnico-táctico
Louise Landes Levi)

ó Bráulio, anda cá abaixo ver isto

Chegam de Lahore e Karachi
e perguntam pela obra de Judith Teixeira

que a brisa do Brasil beija e balança*

A paixão medida,
Carlos Drummond de Andrade, Record

* é um verso de Castro Alves

um poker da Quasi

Berçário,
Rui Lage, Quasi

Obra poética - Vol. III,
Artur do Cruzeiro Seixas, Quasi

Poesia completa,
Natércia Freire, Quasi

Soletrar o dia - obra poética,
Rosa Alice Branco, Quasi

mas queriam que o homem mudasse tudo no primeiro ano?

à hora do almoço, uma senhora



Four women, Nina Simone

um poema

da vida das marionetes

bonecas, penduradas
no céu desta noite
sem rumo

desabam
cataplécticas
suas pernas
erráticas

pelos destinos - traçados
nas efemérides
da infância

Virna Teixeira
in Trânsitos, Lumme Editor

juro pela minha saúde

Alguém chegou a este blogue
depois de procurar no google:

poesia sobre troco

exilados, citacionistas, defuntos, génios, ilhéus e outros camaradas menos precisados de internamento do que à primeira possa parecer

Poesia,
Luiza Neto Jorge, Assírio & Alvim

Bardamerda,
Anónimo, & etc

Poesia,
Francisco Bugalho, LG

La vocación suspendida,
Lauren Mendinueta, Point de Lunettes

121 poemas escolhidos,
Emanuel Félix, Salamandra

O autofalante,
Pedro Cardoso, 4004 Edições

Antologia poética,
Octavio Paz, Dom Quixote

Poemas,
Michelangelo, Imago

Jardim das delícias,
Maria Alexandre Dáskalos, Caminho

Escreviver,
José Lino Grünewald, Perspectiva

Zaragoza,
José Luis Cano, Media Vaca

de landas isabelinas

Circumnavigation,
Jane Routh, Smith / Doorstop Books

da sub-secção gente que não dominava completamente a língua de António Sardinha

The collected poems of...,
Archibald MacLeish, Houghton Mifflin company

no repeat

Bone Machine, Tom Waits